quinta-feira, 23 de março de 2017

Do Paó (para iyá Dora ty Oiyà)

( foto: https://www.facebook.com/olhardeumcipo/ ) 

do dia da caça...
de todo dia ser de Òsósí caçador

da espada e do escudo de Ogun 
da força das cachoeiras abundantes de Osun
da ventania purificadora de Oiyà
de, sob o alá de Òsàlá, manter-ser a salvo 
dos olhos perigosos...
dos covardes


( foto: https://www.facebook.com/olhardeumcipo/ ) 



quinta-feira, 2 de março de 2017

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Úmido

Fonte: http://gotartwork.com/Artwork/dancing-in-the-rain/18707/

A água veio do céu.
de dentro.
escorreu no chão.
No tempo da fé transbordar
E água se multiplicou em mãos irmãs
Adoçando o dia da festa para as crianças.

Tempestade lavadeira me pegou na trilha que escolhi
Aí veio o milagre da voz serena, embaixo da chuva
Escorrendo pelas valas da estrada vivida
Até vencer as distâncias e me acertar em cheio o olho
Dos lábios amados, em som distante
O tom daquela gargalhada que eu comeria para viver
O riso dançou com a tormenta  
E deixou tudinho úmido.  

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Aquele Cara

(Imagem: Milo Manara)


Aberta a porta
o beijo sem palavras foi o cumprimento 
em minutos...
todas as roupas no chão
 e as peles entraram em jornada para o alto
avançando encostas 
criando juntas um sistema de hidratação 
na base do suor 

um beijo mais longo que a noite
mantido intacto pelas quatro mãos 
nas duas cabeças coroadas pelos vinte dedos
sem pressa, mas com a força da imensa espera

língua, boca, dedos e mãos
extraindo todo tipo de líquido da pele
para sustentar um mundo que se torna fértil e úmido
é... o massapê da gente foi bem feito

olha...
a carne sabe de si e avança
cada parte do corpo vibra e dança
ijexá ensaiado durante centenas de anos
no voar  da mão percussiva
está a batida ecoando samba no meu no peito

e a felicidade 

onde, quando e como? 
com aquele cara, tudo!
no pensamento e nesta poesia
sorvi, suguei, salguei
e nada lamento



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

cheia de mim (para as Pretas Candangas)

Mãos e pernas embaixo d'agua na casa de meus pais, com anéis e pulseira.
eu quero é ver os ocos
e onde houver vazio

que eu saia cheia de mim

me faço escutar
mesmo que não seja através de palavras
quem finge que não ouve
avisado está
assim construí este olhar lavado
num corpo que já andou pelo mundo
numa alma atenta, de espírito revolucionário

tomara que o que eu tenho sirva
se não te servir, você também não me serve


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

bordado

Nesses dias faço, despudoradamente, bordados silenciosos  
nas linhas do tempo-vida.

Calo sim, o que podia ser dito, pois não quero ouvir nada em troca
a não ser os conselhos de deusas.

De clausura e bolhas de solidão, teço esse pano novo, denso, colorido e na medida:
outros luminosos rumos.






domingo, 25 de janeiro de 2015

Yabá (para minha tia de santo, Maíra Azevedo)



daquele chão levanta... majestosa
em banho perfumado por boas ervas

a mão que segura espelho, alfange
é a mesma que fez o chão brilhar

a alvura do pano
não conta que foi lavado à mão

enxaguado de balde ou bica
mergulhado em engoma ou anil
passado em calor ou no frio do tempo

a armação da saia não fala da anágua
endurecida e bem seca
que suaviza cada passo de dança
balança, balança

a altivez das costas não conta
que yawô de yabá dormiu no chão

curvou na pia, limpou o chão do barracão
cortou tempero, sapecou folha de bananeira
lustrou os móveis

deita como qualquer um de nós
levanta rainha